O que faço aqui? Que jogo é este? Puxei as redes por seis vezes, e sempre o mesmo peixe redondo, sem cheiro, sem cor, intragável.A minha equipa, digo, os meus colegas (já não somos uma equipa) discutem entre si, trocam palavras ferozes e ingratas... e na verdade, cada um consegue apenas ouvir a sua voz própria voz, o eco abafado da solidão.
Deitam os olhos à relva... a relva desesperantemente verde, bem aparada para que a bola continue a correr de forma natural, a prolongar a nossa tragédia e a minha vergonha. Porque não se enrola simplesmente, como uma língua felpuda, e nos afoga a todos na sua saliva de terra?
Se ao menos pudesse ter-te aqui, mãe... Pousar a minha cabeça em teu regaço e acabar com o sofrimento. Deixar que as tuas palavras doces me beijassem os ouvidos e me acariciassem as pálpebras até adormecer: "Não te preocupes, está tudo bem."
Mas olho para a frente e vejo-os avançar, furiosamente. Atacam com o mesmo apetite voraz de há cinco minutos atrás... Não têm fome, já não podem ter fome, mas continuam a comer, insaciáveis. Falam uma língua estranha, não percebo o que dizem. Tem um timbre forte, grave, autoritário. Parece que estão constantemente a dar ordens uns aos outros. E cumprem-nas... Cumprem-nas de forma diligente e eficaz.
Que engraçado... ocorreu-me uma música. Há muito tempo que não a ouvia. E ouço-a agora, inesperadamente, na minha cabeça. O que a terá feito surgir aqui? Tento sibilar o refrão. Não me lembro da letra. Mas é uma boa música, sem dúvida. Fica no ouvido.
E eles avançam... Um jovem possante corre desenfreadamente com a bola, pelo lado esquerdo. Leva um rastilho aceso nos pés. À medida que ele avança, o rastilho vai-se consumindo. Quando estiver mais perto de mim, o rastilho chegará ao fim e o canhão das suas chuteiras irá disparar, com estrondo, uma bola de fogo. Tenho de estar pronto... Desta vez estarei pronto.
Cerro os punhos. Uma gota de suor percorre-me a cara. Não devia ter cortado a barba hoje de manhã. O suor abrasa-me a pele. Nota mental: não voltar a cortar a barba em dias de jogo. O rapaz avança. Temos a mesma idade. E no entanto, invejo a sua força, a sua velocidade, a sua determinação. Passo uma luva pelo queixo, para tentar limpar o suor. O rapaz avança. Num gesto rápido, esfrego as luvas na camisola. Ele está cada vez mais perto. Flicto as pernas. Ele puxa a culatra. Abro as mãos. Arregalo os olhos. O coração galopa. Ouço o canhão. A bola voa... Lanço-me com todas as minhas forças para a abraçar no meu âmago, para que ela nunca mais me faça infeliz...Os meus dedos esticam-se o mais que podem, os meus braços crescem enquanto salto. Todo o meu corpo quer aquela bola. O meu peito quer aquela bala. Eu sou o guarda-costas que se lança de forma altruísta para salvar o presidente e o país. Eu sou um Deus que quer agarrar o Mundo e torná-lo um mundo melhor, para sempre... Eu sou um pássaro... Sou o vento...
Mas de repente, o mesmo silêncio. Um pequeno istmo que separa o fragor das bancadas daquele som seco e prolongado da bola que bate na rede.
Caio desamparado no relvado, qual Ícaro desenganado.
O jovem que fala uma língua estranha vira-se para os seus colegas e sorri de forma cruel. Olha para mim com ar piedoso, o que o torna ainda mais cruel.
Já ninguém festeja o golo. As pessoas limitam-se a rir. Nas bancadas, soltam-se gargalhadas sonoras e trocistas. Homens, mulheres e crianças, todos se riem do nosso desespero, da nossa trágica incapacidade para travar as rodas dentadas da máquina voraz que nos continua a mastigar e engolir sôfregamente.
Todos riem. Todos riem menos nós. Visto do céu, o estádio é uma enorme boca de língua verde que ri alarvemente.
Olho o mister. Senta-se calmamente no banco com olhar autista. Não há nada a fazer. Nunca houve. É o destino. Estamos tristes... Mas do outro lado há muita gente contente... Se calhar há mais gente contente do que triste. Menos mal. É melhor assim.
Que blog tão singular. Que textos tão bem escritos. Caída aqui por quase acaso, deixo a minha vénia a quem escreve assim...
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