segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Aprazer




Rompe o dia (rejeito dizer irrompe, porque o associo ao invadir dos raios solares entre os espaços picotados da persiana); aliás, minto, toca o despertador no escuro bréu do quarto. Adio o acordar por trinta minutos e assumo, logo ali, as consequências do atraso. O motivo é deveras humano e, por conseguinte, deveras atendível (nunca percebi porque só uma razão de força maior, como um tornado do oeste, é razão prevalecente): é a paixão, é a imagem mais bela que os meus olhos alcançam.

A custo, não de euros, mas de preguiça visual, entrevejo, na penumbra, porventura elucidado pelo seu refulgir natural, o rosto repousado em sereno descansar. Deitada, dormindo, aquietada, sossegada, em gesto imanente de elegante princesa, fito-a em silêncio. Ganho vida e, em abrupta cascata, perco-a ao lembrar que o dia de trabalho não se contorna e a lei da vida nele me exige a presença.

Saio daquele leito, mergulho no chuveiro, visto e abotoo-me. É altura do fim, do último olhar daquela manhã. Sento na beira da cama e perco-me. Abstraio o tempo e o espaço e foco-me em recolher-lhe a serenidade do seu rosto, sim, encarno-me da voracidade do mais vil ladrão e ouso apreender, em memória guardada, tamanho deleite, para, por fim, num repente, logo arrependido, virar costas e ir à labuta diária. Até logo.

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